O mercedes do doutor rudi
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[o mercedes do doutor rudi](o mercedes do doutor rudi)
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na rigida estrutura organizacional da daimler-benz dos anos 50, os engenheiros podiam ser agrupados em diferentes níveis hierárquicos conforme suas credenciais acadêmicas. em ordem ascendente: dipl.-ing. ( diploma-ingenieur ), dr.-ing. ( doktor-ingenieur ), e prof. dr.-ing. ( professor doktor-ingenieur ).e lá no topo, acima de todos eles, estava rudi.
rudi - ou mais formalmente, rudolf uhlenhaut - já trabalhava na empresa havia mais de vinte anos, tendo assumido seu departamento de competições em 1936. nessa função, mostrou a que veio logo de início com os projetos do w125 e do w154, monopostos que restabeleceram a supremacia da mercedes-benz sobre a auto union, sua maior rival na década de 30.
uhlenhaut era o oposto de um engenheiro de gabinete. não hesitava em por a mão na massa junto com os mecânicos, e frequentemente dispensava os serviços dos pilotos de testes para avaliar pessoalmente o comportamento de um carro.
testando o w154 em monza, 1938e agora, no cenário radicalmente transformado do pós-guerra, repetia a dose ao projetar automóveis que não davam chance aos seus competidores na fórmula 1 e nas provas para carros esporte, como a mille miglia e as 24 horas de le mans.além disso, coube a ele desenvolver o 300sl, o revolucionário modelo que abriu as portas do mercado americano para a mercedes-benz e fez mais para alavancar sua imagem de marca do que qualquer outro modelo em sua história.
ny, salão do automóvel de 1954: o 300sl como abre alas com uma folha de serviços como essa, não surpreende que fosse tratado como um patrimônio da empresa, com carta branca para fazer praticamente tudo o que bem entendesse. mas junto com as regalias vinha uma limitacão: mesmo sendo um apaixonado pelo automobilismo e mesmo tendo o talento de um piloto profissional, uhlenhaut estava proibido, por contrato, de participar de qualquer tipo de corrida.para adoçar a pílula, a daimler benz disponibilizou para seu uso pessoal um dos dois únicos exemplares existentes de um carro que ele mesmo havia projetado: a versão coupé do 300slr.
o modelo havia sido desenvolvido para disputar as provas do campeonato mundial de marcas de 1956, mas o plano acabou sendo arquivado depois do trágico acidente envolvendo um dos carros da marca nas 24 horas de le mans de 1955, o que levou a mercedes a se retirar das competições.
externamente, o slr coupé guarda alguma semelhança com o 300sl, mas na realidade trata-se de um carro de corrida minimamente adaptado para uso de rua. a combinação entre seu motor de oito cilindros em linha e 310 hp (essencialmente o mesmo utilizado nos monopostos w196 de f1) e uma estrutura tubular pesando apenas 60 kg lhe permitia alcançar uma velocidade máxima próxima aos 300 km/h.
ao seu volante, rudi se divertia diariamente no caminho entre sua casa e a sede da empresa em untertürkheim, nos arredores de stuttgart. e deixava roxos de inveja os coleguinhas de seu filho roger ao ir buscar o garoto na escola.
um aspecto paradoxal dessa história é que, em toda a sua vida, uhlenhaut nunca chegou a ser proprietário de um automóvel. nem mesmo do 300 slr coupé. para quem podia dirigir o mercedes-benz que quisesse na hora em que bem entendesse, o certificado de propriedade era apenas um detalhe sem importância.
não faz parte da cultura empresarial da daimler-benz dar destaque a indivíduos que tenham trabalhado na empresa, por mais brilhantes que tenham sido suas contribuições - mas neste caso abriu-se uma exceção. e assim, o mercedes do doutor rudi hoje faz parte do acervo do mercedes-benz museum de stuttgart, onde aparece identificado para a posteridade, com toda a justiça, como uhlenhaut coupé.

de longe meu mercedes preferido.

